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Entrevista com Diogo Morgado

Seg, 09/12/2013 - 17:56
Um português que Hollywood apresentou ao mundo

Os holofotes da fama incidiram sobre ele quando protagonizou Jesus Cristo na série norte-americana “A Bíblia”, em 2013. Mas este não foi o primeiro passo de Diogo Morgado numa carreira internacional como ator. Muito pelo contrário. Há já oito anos que empresta o talento a produções internacionais, primeiro no Brasil, com “A Selva”, mais tarde em Espanha, onde rodou três filmes. Tudo enquanto em Portugal se consolidava como nome na sétima arte e na televisão. A verdade, porém, é que Jesus foi o papel que lhe abriu novos horizontes. Um papel a que deu um toque muito pessoal e que lhe valeria um epíteto que haveria de se tornar quase viral em páginas de jornais, programas televisivos e redes sociais. Apesar de ter sido Oprah, a apresentadora norte-americana que dispensa apresentações, que fez eco deste Diogo “Hot Jesus”, tudo começou muito antes. “Eu não entrava nos primeiros episódios e, numa série com 110 milhões de espetadores, a pergunta que se impunha era ‘quem vai fazer de Jesus’”, recorda. Curiosos, os espetadores americanos pesquisaram no Google: “Aparecia um tipo que não tinha túnica nem espinhos – eu. Não podiam dizer se eu representava bem ou não, pelo que apenas comentaram a aparência. Só quando a minha personagem entrou na série, é que começaram a valorizar mais o meu trabalho e as opções que fiz”. Apesar de rejeitar rótulos, não se sente incomodado por lhe chamarem “Hot Jesus”.

“A Bíblia” vai entretanto passar para o grande ecrã, mas, enquanto a estreia não acontece, Diogo Morgado continua em cena na indústria norte-americana, com participações na série televisiva “Revenge”, da Fox. Apesar da exposição pública, não se deixa ir na onda da fama. Diz que, como pessoa, nada mudou. Profissionalmente, claro, muito mudou: alargaram-se as perspetivas, passou a planear o seu trabalho tendo em conta que há mais mercados no horizonte, e passou a gerir a vida entre dois países. Tirando isso, garante que não há grandes diferenças: “Era reconhecido nas ruas de Lisboa e agora, às vezes, sou reconhecido nas de Los Angeles. As pessoas são simpáticas, mas não é uma histeria, como quando veem um Alec Baldwin ou um Tom Hanks…”.

Não eram estes palcos que Diogo imaginava pisar quando era pequeno. Os primeiros passos no mundo artístico deu-os aos 15 anos – teatro infantil, teatro, apresentação de programas, musicais… foi assim que preencheu os seis anos seguintes, até que aos 21 pensou que estava na altura de escolher um caminho a sério. “Andei um mês indeciso. Queria entrar na faculdade, mas percebi que era tarde demais. Que tudo o que podia vir a fazer tinha que ver com escrever, realizar, contar histórias”, recorda. Foi a razão a dar o empurrão que faltava à vocação. “Aconteceu assim e ainda bem que aconteceu”. Aos 32 anos, continua a ir buscar inspiração a dois dos seus atores preferidos de sempre – Armando Cortez e Nicolau Breyner. Ambos o motivam pela forma de estar na profissão mas também pela forma de estar na vida.

Foi Armando que o descobriu: “Foi a primeira pessoa que me agarrou e viu que havia alguma coisa. E quando ele diz, acredita-se. Eu acreditei e acredito até hoje”. E Nicolau inspira-o pela noção de coletivo que tem: “Mesmo quando está mal, é muito difícil encontrá-lo com ele só”. “Se ser ator é ser isto, eu quero ser isto”. Não tem dúvidas. E o que quer ser é “alguém que, acima de tudo, é um espelho do espetro da vida”. Contra rótulos e contra estereótipos, como o de que “um galã não faz comédia”. Diogo fez e tem uma história para contar: “Houve um artigo nos Estados Unidos em que perguntavam por que é que este Jesus sorria tanto. Eu tive oportunidade de responder e pode ter parecido um bocadinho gratuito, mas se a história de Jesus era de alguém que chegava a um sítio e atraía multidões era porquê? Se calhar era só um sorriso. Um forasteiro a sorrir numa terra onde o sentimento de opressão era diário tinha de ser magnetizante. Sorrir foi uma decisão consciente. Aprendi o que é contagiar as pessoas com um sorriso e uma gargalhada e a falta que isso faz”.

Diogo Morgado

Um aeroporto para si é?
Um ponto de passagem. O único sítio onde as culturas, as raças, as línguas, as religiões, os gostos e os desgostos são todos indiferentes, são todos secundários. Todos coabitam nos mesmos metros quadrados de uma forma extremamente pacífica, ninguém olha para o lado, está tudo focado no destino, o que não deixa de ser irónico e interessante ao mesmo tempo.

O que sente quando parte?
A partida evoca muito menos do que a chegada. Evoca expetativa face a algo que nos está a levar do sítio onde estamos e onde vivemos. E isso requer investimento, de tempo, de dinheiro.

E no regresso, o que sente?
É sempre uma felicidade enorme. Não há altura nenhuma que não regresse e não fique brutalmente contente. Quando se regressa, a primeira coisa que se vê é o aeroporto e esse contacto, para mim, sempre foi prazeroso. Por alguma razão, sou teimoso em dizer que dificilmente viveria fora de Portugal, neste caso Lisboa, onde nasci, onde vivo, onde trabalho. Não é por acaso. Se calhar é um bocadinho arrogante dizer que é das cidades mais bonitas do mundo mas, para mim, é.

Das viagens qual lhe deu mais prazer?
Foi uma que fiz na América do Sul, ao Peru, Bolívia, Chile. É uma viagem especial, porque não são destinos óbvios. É uma viagem que se faz porque se quer mesmo, porque se deseja. Aconteceu quando estive quatro meses a gravar na floresta amazónica, antes de regressar a Portugal fiz essa viagem pelas diversas fronteiras do Lago Titicaca.

Onde nunca se cansa de voltar, sem ser lisboa?
Curiosamente, a Los Angeles. Digo curiosamente porque é uma cidade que, à partida, tem muito pouco de apelativo, não está recheada daquele glamour cinematográfico de Nova Iorque. Mas tem uma coisa de que gosto muito: é enorme, toda muito espalhada, gosto de não haver concentrações, de haver zonas, de haver espaço e poder movimentar-me respirando. É uma cidade em que se respira e em que me sinto muito confortável.

EXCENTRICIDADE E BOM SENSO?
Diogo deixa escapar uma gargalhada quando lhe pedimos que aplique a si próprio o tema desta edição da revista – excentricidade e bom senso. “Não sou nada excêntrico”, começa por dizer, para logo sublinhar que tem “alguma dificuldade” em compreender a excentricidade. Na arte ou na moda a excentricidade é “fabulosa”, “criatividade pura”. E essa, sim, aprecia. Já as pessoas que são excêntricas na sua forma de estar lhe merecem outra opinião – são “intromissivas”. Quanto ao bom senso, diz que é qualidade de que há “uma falta tremenda”. Mas acredita que é algo de que tem uma boa dose.

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