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Foi no norte que o país, hoje chamado Portugal, se começou a desenhar, no remotíssimo século IX. Era então um condado que cedo ganhou ânsia de independência, lutando para se libertar da integração no vizinho reino da Galiza. De Portucale, a localidade situada na foz do Douro que lhe emprestou o nome, cresceu, ao longo dos séculos seguintes, para o território atual, conquistando terras e poderes.
Na história dessa independência tem lugar cativo o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, nascido em Guimarães, a cidade que haveria de ganhar foros de berço da nacionalidade. E onde o castelo continua a ser um convite monumental a uma viagem no tempo.
Mas a Portugalidade não é exclusiva de uma cidade. Basta deixar o olhar espraiar-se pelo caminho que o rio Douro foi abrindo pela Península Ibérica até desaguar no mar, tendo como pórtico a cidade do Porto.

O Porto é um balcão privilegiado com vista para o Douro. E é à beira-rio que é possível testemunhar o que de mais pitoresco e genuíno a cidade tem para oferecer, com as suas gentes e modos típicos de um viver que resiste à voracidade dos tempos modernos. É a Ribeira, ponto de passagem obrigatório para desfrutar da serenidade das águas do rio.
Do lado de lá, espreita Vila Nova de Gaia, também ela em comunhão com o Douro e com o seu produto mais famoso: o vinho do Porto.
Se outros atributos não tivesse, valeria por ser a capital da degustação deste verdadeiro néctar dos deuses, uma experiência proporcionada pelas muitas caves de produtores que se alinham na margem ribeirinha. Uma experiência que está à distância de uma travessia sobre o rio, no tabuleiro metálico da ponte D. Luís, que Gustave Eiffel, o mesmo da torre parisiense, legou à cidade.
De volta ao Porto, é tempo de olhar para a cidade que cresce a partir do rio, oferecendo-se à descoberta do visitante, com mil e um exemplos de património arquitetónico e monumental que merecem um olhar mais demorado. Da Torre dos Clérigos ao Palácio da Bolsa, dos Paços do Concelho ao Palácio do Freixo. São vestígios de outras eras, que convivem em harmonia estética com símbolos da modernidade, como a arrojada Casa da Música, surpreendente nas linhas direitas que rasgam o horizonte. Entre a história e a modernidade, Serralves: casa de artes – ou não fosse ela um belíssimo exemplar de art déco – e um dos muitos postais verdes da cidade.
Do Porto, a viagem deve continuar rio acima à descoberta de um Douro que se abre à contemplação, merecedor de admiração pela pujança de uma natureza sábia, que não se resignou a ser agreste e soube tornar-se no terreno fértil de um tesouro – o vinho - que leva o nome da região aos quatro cantos do mundo.
É uma paisagem deveras impressionante, justamente classificada pela UNESCO como património mundial. O verde é interrompido aqui e ali por magníficos exemplares da arquitetura solarenga – solares de uma arquitetura opulenta onde ainda hoje se respira tradição.

O mais icónico de todos é o Solar de Mateus, a justificar plenamente uma incursão mais a norte, até Vila Real. De inspiração italiana, é um verdadeiro prazer para os olhos desde o momento em que se deparam com o esplendor barroco e a riqueza da decoração.

De regresso ao Porto, esta viagem entre tradição e modernidade não ficaria completa sem uma pausa em Viana do Castelo. Para mergulhar no coração de uma arte única, a da filigrana: em finos fios de ouro se tecem ali peças de joalharia que há séculos adornam a silhueta feminina. Mas também ali se tecem os fios de um novo design, alimentado pela inovação mas com a paixão de sempre.
A reinvenção é um traço genuíno do norte de Portugal: ali, a tradição e a inovação andam de mãos dadas, na construção da nova portugalidade. Seja, pois, bem-vindo!